Ciclovias? Não obrigado!
Quem acompanhe este blog, ou quaisquer outras intervenções minhas (fóruns, vida real, etc) acerca do tema ciclovias, sabe que eu sou um grande defensor do ciclismo veícular e portanto um opositor das ciclovias (ciclopistas, pistas cicláveis, etc.) principalmente no que toca ao interior das localidades!
Ecopistas como as que vão sendo construídas nos ramais de comboio desactivados – como a ecopista do rio Minho – ou ciclovias como a que liga Cascais ao Guincho, são casos diferentes (e portanto os seus (de)méritos estão fora desta discussão), quer pela sua função (principalmente lazer), quer pela quase completa inexistência de cruzamentos!
Não digo que não haja casos em que a existência de uma ciclovia traga mais vantagens que desvantagens, mas na maior parte dos casos não existe justificação suficiente para a segregação das bicicletas.
Começando então a explicar a minha posição, vou começar por falar da segurança dos ciclistas, visto ser esta a justificação que mais vezes é apontada para a criação de ciclovias, redes cicláveis, etc.; pois é necessário que os ciclistas circulem em vias segregadas para evitar que sejam atingidos por um automóvel vindo por trás (segundo os defensores das ciclovias – na maioria das vezes pessoas que nem sequer andam de bicicleta)!
Existem diversos estudos, estatísticas de diversos países, estados ou cidades (excepto de Portugal, infelizmente) que com pequenas variações dizem o seguinte: a maior parte dos acidentes que envolvem uma bicicleta e um veículo motorizado acontecem nos cruzamentos e não nos trechos entre estes:
Se quisermos categorizar os acidentes, temos a seguinte lista:
![]() Retirado de How to Ride in Boston Traffic – Or Anywhere |
De todos os acidentes sérios:
Os restantes são colisões com outros ciclistas, peões e cães. Colisões automóvel-bicicleta:
95% das colisões automóvel-bicicleta ocorrem nos cruzamentos |
O grande problema com as ciclovias é que servem para evitar os acidentes que ocorrem nos trechos entre cruzamentos (como vimos são números muito pequenos) e potenciam os acidentes nos cruzamentos que para além de serem os que mais vezes acontecem, são também os mais perigosos!
Isto acontece, porque o próprio desenho das ciclovias faz com que nos cruzamentos o ciclista apareça fora do local para onde os condutores de outros veículos estão a olhar!
Para que a constatação deste facto – ciclovias aumentam o número de acidentes nos cruzamentos – não fique simplesmente pelo óbvio, deixo aqui um quadro retirado de um estudo efectuado em Copenhaga baseado em valores antes e depois da introdução de ciclovias em algumas ruas:
Como é possível ver, as ciclovias realmente servem para diminuir as colisões por trás (que são uma muito pequena percentagem das colisões que existem) mas, e este é um GRANDE MAS, aumentam e muito (nomeadamente quando o automóvel vira à direita à frente do ciclista) aqueles que acontecem nos cruzamentos – os que mais acontecem e que mais graves são!




on January 18th, 2008 at 22:39
Óptimo post, Frederico!
on January 21st, 2008 at 13:50
http://sergiomoraes.wordpress.com/2007/12/09/nao-use-a-ciclovia/
on January 31st, 2008 at 05:24
ainda estou a olhar para os valores e a tentar perceber o que é que falhou ali, porque para mim é dificil entender como é que mais ciclovias induzem mais acidentes. no relatório deles diz:
“It should be noticed that blue cycle crossings, retracted stop lines for cars and pre-green lights for cyclists have been used in only very few places on those streets where cycle tracks have been constructed in Copenhagen in the studied after periods. More extended use of these safety measures would very probably have improved road safety.”
se percebi bem, construiram ciclovias sem semáforos apropriados na maior parte dos cruzamentos…?
on January 31st, 2008 at 12:05
O problema não está na falta de semáforos adequados ou não; o problema é intrínseco às ciclovias!
Podes ver o post da Ciudad Ciclista que indico no texto sobre a dirigente ciclista acidentada.
http://www.ciudadciclista.org/342/santiago-de-chile-dirigente-ciclista-atropellada-en-un-carril-bici/
Acrescentar semáforos, tinta azul, às bolinhas ou outra qualquer coisa são só medidas extra que tentam resolver um problema de segurança que foi criado pela inclusão da própria ciclovia ao obrigar o ciclista a andar encostado à direita…
on January 31st, 2008 at 12:42
isso não é verdade.
se o cruzamento onde ela foi atropelada tivesse semáforos para bicicletas e para carros, só passavam uns de cada vez. um carro nunca poderia virar à direita se o sinal estivesse verde para as bicicletas (pelo menos não em portugal, onde virar à direita com o semáforo vermelho para os automobilistas é proibido).
ou percebi mal o acidente?
on January 31st, 2008 at 13:09
O que não é verdade?
Quanto ao acidente da senhora, se a ciclovia não existisse:
1 – não eram necessários mais semáforos nenhuns;
2 – a senhora seguiria na sua faixa, que seria a mesma do carro e iria um atrás do outro o que nunca provocaria o acidente!
A não ser que a senhora fosse parva e seguisse à mesma encostada ao passeio…
on January 31st, 2008 at 14:06
não é verdade que o acidente tivesse acontecido se a ciclovia fosse segura (com semáforos).
sem querer começar uma discussão contigo, quero apenas dizer que também não concordo com ciclovias que são apenas um risco no chão: se se vão fazer, que sejam bem feitas e seguras – e isso implica semáforos para bicicletas nos cruzamentos.
e se forem bem feitas, não tenho dúvidas que o número de acidentes diminuiria, como aliás é implicado no relatório.
on January 31st, 2008 at 16:26
Não existem ciclovias seguras!
A não ser que queiras fazer toda uma rede ciclável completamente separada das estradas que actualmente existem… mas isso para além de megalómano é completamente utópico!
Tal não é implicado no relatório; até porque se assim fosse eles teriam os números desses cruzamentos “seguros” separados dos outros.
Aconselho uma pesquisa pela net e leitura crítica dos diversos links, acerca da segurança que as ciclovias realmente dão (não confundir com a sensação de segurança) ou, se quiser alguns exemplos, pode começar pelos referências que eu falo na página “documentação” (canto superior esquerdo).
on January 31st, 2008 at 17:23
aí discordo. existem ciclovias seguras e projectos “utópicos” que se tornaram realidade através de planeamento e persistência.
dou o exemplo de groningen, na holanda, onde morei durante um ano e que é uma das cidades com maior taxa de utilização de bicicletas do mundo. essa taxa nunca seria possível sem as ditas “ciclovias”.
http://www.metaefficient.com/bicycles/groningen-city-57-of-all-trips-are-by-bike.html
e
http://www.transalt.org/blueprint/chapter4/chapter4c.html
on January 31st, 2008 at 19:24
Será que a causa dessa taxa de utilização é devida às ciclovias ou não será principalmente devida às medidas de restrição ao tráfego automóvel que foram implementadas?
«During the seventies the management perceived that, apart from economic development, attention also needed to be devoted to an enduring, low-scale inner city as a central point for a host of activities, with a blend of living, working and shopping functions and favouring pedestrians, cyclists and public transport. In 1977 this perception produced the traffic circulation plan which divided the inner city into four sectors. It was not possible to travel between sectors by car, but it was possible by bicycle and bus. Passing car traffic was kept outside the inner city and motorists whose destinations were in the inner city were led via the shortest route to parking areas close to the centre. During the eighties and nineties the parking policy was strictly implemented. Parking with time restrictions was introduced in a broad radius around the inner city.»
http://www.fietsberaad.nl/library/repository/bestanden/Cycling%20in%20the%20Netherlands%20VenW.pdf
Quanto a estatísticas de acidentes de Groningen, a única coisa que encontrei foi este documento (dados coligidos em poucos meses entre 87 e 88 – http://eprints.whiterose.ac.uk/2260/1/ITS157_WP300_uploadable.pdf) pág. 14, parágrafos 5, 6, 7, … onde referem números idênticos aos que tenho visto em todo o lado:
- 62% ocorrem nos cruzamentos
- 64% o ciclista estava no lado direito da estrada
- 65% eram ciclistas que pretendiam seguir em frente
Finalmente na página 20, onde apresentam as conclusões, têm a seguinte frase – que também é recorrente nestes estudos:
«Cycle paths seem not have the expected safety effect. Many accidents to cyclists happen when they are on a cycle path, in particular collisions with a turning vehicle which did not have a right of way.»
Tal como o estudo que mostro no meu post, todos os dados apontam para o mesmo: ciclovias aumentam o risco de acidentes em cruzamentos, que é exactamente o local onde ocorrem mais acidentes!
No entanto os patronos das ciclovias continuam a justificá-las com a necessidade de aumentar a segurança dos ciclistas e como isso não acontece têm que andar a acrescentar sinais e sinaizinhos para remediar o mal que fizeram!
Tal como o senhor do estudo de Copenhaga (deu origem a esta troca de ideias) também termina dizendo que se devem aumentar os sinais…
on February 6th, 2008 at 16:32
Frederico, A ana tem razão. Deixa-te de merdas e não sejas radical. Tal como possivelmente muitos “entendidos” declararam a ciclo-via como necessário à décadas atrás e agora se arrependem, tu também podes vir a arrepender-te de certas atitudes que estás a passar aqui neste “fórum”…
As “interpretação” das estatísticas valem o que valem…
on February 6th, 2008 at 17:04
Caro SS,
Agradecia que fosse mais explícito quanto ao seu comentário:
Por um lado diz que a Ana tem razão, por outro concorda (ou será que li mal?) que quem declarava as ciclovias como necessárias se arrependeu…
Já agora, não tenho escrito nada de que me possa vir a arrepender mais tarde!
Aliás noto é que algumas pessoas que dantes eram defensoras das ciclovias e diziam que eu era radical, maluco, ou outro qualquer ‘elogio’, à medida que vão andando de bicicleta na estrada já deixaram de ser defensoras das ciclovias e dizem que a sua construção deve ser questionada.
Frederico
P.S.
Se se identificar com um nome (ao invés de iniciais) e incluir uma ligação para uma página sua, seria mais simpático.
on May 8th, 2009 at 12:46
Frederico,
Quanto as estatisticas, em que o numero de acidentes aumenta, tens de contrastar esse aumento com o possivel aumento de bicicletas a circular nas ciclovias que foram construidas. Se em vez de 10 bicicletas passarem 1000 diariamente no mesmo trecho de estrada (por estar agora equipada com ciclovia), e se os acidentes aumentarem menos de 100%, parece-me que as condicoes de seguranca melhoraram. Faltam muitos dados a essas estatisticas!
Quanto a Holanda, eu penso que as ciclovias dao uma ajuda. Estao construidas de maneira a serem o mais seguras possiveis, com semaforos, etc. E a prioridade a bicicleta e absoluta, inclusive em rotundas (nao queiras comparar a facilidade e seguranca de fazer uma rotunda em ciclo-via na Holanda com uma qualquer rotunda em Lisboa).
Claro que dizer ciclo-via assim no abstracto pode-se estar a conceber uma ciclo-via muito ranhosa, mas tambem pode ser uma grande ciclo-via. Alem do mais os carros tendem a prestar mais atencao a ciclistas se virem uma pista desenhada no chao (e como um sinal de ‘Atencao ao ciclista’ que permanece ao longo de todo o percurso).
Dou-te razao no entanto, que a ter uma ciclo-via em que ninguem circula, provavelmente o risco de acidente pode aumentar pois e uma ‘ciclo-via’ fantasma e os carros habituam-se a nao ver ninguem circular por la!
Cumprimentos,
Miguel
on February 6th, 2010 at 14:18
[...] Vou de bicicleta (Voy en bicicleta). [...]
on February 8th, 2010 at 15:56
Caro Miguel,
Em primeiro lugar desculpa por não ter respondido na altura, mas confesso que não dei por o teu comentário ter aparecido (afinal este post já é bem antigo).
Já quanto ao facto de não ter mencionado o aumento que terá havido no nº de pessoas a circular, não foi para esconder nada, aliás quem seguisse o link para o estudo poderia ler esses números directamente na página 7:
«The construction of cycle tracks has resulted in an 18-20% increase in cycle/moped traffic and a decrease of 9-10% in car traffic on those roads where cycle tracks have been constructed. A considerable amount of these effects were already visible during the construction period, although the effects increased after roadworks were finished.
The construction of cycle lanes resulted in a 5-7% increase of cycle/moped traffic and an unchanged amount of car traffic on those roads where cycle».
Como é que alguém pode justificar um aumento de 129% de “right-hooks” () com um aumento de 20% na circulação! Ou seja, o aumento de right-hooks foi superior ao aumento de circulação em mais de 6X!
E como é que alguém após ver estes números continua a pedir que se façam mais ciclovias!