Manifesto dos Invisíveis

Posted on September 15th, 2008 in Bicicleta... by Frederico

Uma das coisas que gosto de fazer é manter-me informado, e como não sou muito agarrado ao bairro nem ao País, tento obter informações onde as há!
Acerca de bicicletas assino várias listas de distribuição e hoje recebi uma mensagem sobre um Manifesto assinado por cerca de meia centena de ciclistas urbanos do Brasil.

Deixo aqui o Manifesto, pois aqui também não se pedem ciclovias… pede-se RESPEITO!
Também acham que o investimento devia ser em CAMPANHAS DE EDUCAÇÃO.
E por incrível que pareça, as infraestruturas que pedem é simplesmente PARQUEAMENTO!

Motorista, o que você faria se dissessem que você só pode dirigir em algumas vias especiais, porque seu carro não possui airbags? E que, onde elas não existissem, você não poderia transitar?

Para nós, cidadãos que utilizam a bicicleta como meio de transporte, é esse o sentimento ao ouvir que “só será seguro pedalar em São Paulo quando houver ciclovias”, ou que “a bicicleta atrapalha o trânsito”. Precisamos pedalar agora. E já pedalamos! Nós e mais 300 mil pessoas, diariamente. Será que deveríamos esperar até 2020, ano em que Eduardo Jorge (secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo) estima que teremos 1.000 quilômetros de ciclovias? Se a cidade tem mais de 17 mil quilômetros de vias, pelo menos 94% delas continuarão sem ciclovia. Como fazer quando precisarmos passar por alguma dessas vias? Carregar a bicicleta nas costas até a próxima ciclovia? Empurrá-la pela calçada?

Ciclovia é só uma das possibilidades de infra-estrutura existentes para o uso da bicicleta. Nosso sistema viário, assim como a cidade, foi pensado para os carros particulares e, quando não ignora, coloca em segundo plano os ônibus, pedestres e ciclistas. Não precisamos de ciclovias para pedalar, assim como carros e caminhões não precisam ser separados. O ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias, e ainda tem a preferência garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro sobre todos os veículos motorizados. A evolução do ciclismo como transporte é marca de cidadania na Europa e de funcionalidade na China. Já temos, mesmo na América do Sul, grandes exemplos de soluções criativas: Bogotá e Curitiba.

Não clamamos por ciclovias, clamamos por respeito. Às leis de trânsito, à vida. As ruas são públicas e devem ser compartilhadas entre todos os veículos, como manda a lei e reza o bom senso. Porém, muitas pessoas não se arriscam a pedalar por medo da atitude violenta de alguns motoristas. Estes motoristas felizmente são minoria, mas uma minoria que assusta e agride.

A recente iniciativa do Metrô de emprestar bicicletas e oferecer bicicletários é importante. Atende a uma carência que é relegada pelo poder público: a necessidade de espaço seguro para estacionar as bikes. Em vez de ciclovias, a instalação de bicicletários deveria vir acompanhada de uma campanha de educação no trânsito e um trabalho de sinalização de vias, para informar aos motoristas que ciclistas podem e devem circular nas ruas da nossa cidade. Nos cursos de habilitação não há sequer um parágrafo sobre proteger o ciclista, sobre o veículo maior sempre zelar pelo menor. Eventualmente cita-se a legislação a ser decorada, sem explicá-la adequadamente. E a sinalização, quando existe, proíbe a bicicleta; nunca comunica os motoristas sobre o compartilhamento da via, regulamenta seu uso ou indica caminhos alternativos para o ciclista. A ausência de sinalização deseduca os motoristas porque não legitima a presença da bicicleta nas vias públicas.

A insistência em afirmar que as ruas serão seguras para as bicicletas somente quando houver milhares de quilômetros de ciclovias parece a desculpa usada por muitos motoristas para não deixar o carro em casa. “Só mudarei meus hábitos quando tiver metrô na porta de casa”, enquanto continuam a congestionar e poluir o espaço público, esperando que outros resolvam seus problemas, em vez de tomar a iniciativa para construir uma solução.

Não podemos e não vamos esperar. Precisamos usar nossas bicicletas já, dentro da lei e com segurança. Vamos desde já contribuir para melhorar a qualidade de vida da nossa cidade. Vamos liberar espaços no trânsito e não poluir o ar. Vamos fazer bem para a saúde (de todos) e compartilhar, com os que ainda não experimentaram, o prazer de pedalar.

Preferimos crer que podemos fazer nossa cidade mais humana, do que acreditar que a solução dos nossos problemas é alimentar a segregação com ciclovias. Existem alternativas mais rápidas e soluções que serão benéficas a todos, se pudermos nos unir para trabalhar juntos.

A rua é de todos. A cidade também.

Esta frase, ou outras similares, «A evolução do ciclismo como transporte é marca de cidadania na Europa» é recorrente em diversas mensagens que leio em mensagens vindas do Brazil…
Confesso que cada vez que leio algo do género fico na dúvida se Portugal também faz parte desta Europa!

14 Responses to 'Manifesto dos Invisíveis'

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  1. on September 15th, 2008 at 16:46

    Eu não sei se fazemos parte do Sul da Europa? Nesse aspecto ficamos mais no norte de África. No entanto eu não vou ficar à espera de ciclovias, nem se um sistema publico de partilha de bicicletas. Vou tentado lidar conscientemente com o transito e procurando as melhores soluções. Mesmo assim, acho que algo está mudando por cá.

    Saudações

  2. Sílvio Tambara said,

    on September 15th, 2008 at 18:12

    Amigo, sou um dos muitos que assinaram este manifesto e fiquei muito emocionado em vê-lo citado em terras de além mar. Quando o escrevemos acreditávamos que quase ninguém o leria. Acho que os problemas que temos em São Paulo são iguais ou muito parecidos aos de Lisboa e de qualquer lugar do mundo. Vivemos tempos bicudos, falta atenção, respeito, gentileza, enfim, falta humanidade à humanidade. Mas não desistamos. Não estamos sós e não somos poucos. Essa mesma globalização (que na minha opinião começou com os portugueses malucos em seus barquinhos) que espalha uma burrice generalizada por todo lado também nos permite comunicar e compartilhar nossas alegrias. Abraços do tamanho do atlântico, Sílvio.

  3. Frederico said,

    on September 15th, 2008 at 18:16

    Oi, parabéns pelo Manifesto!
    Está simples e muito directo ao assunto!

  4. Vitor Leal said,

    on September 15th, 2008 at 18:46

    Frederico,
    Como disse o Silvio, muito legal saber que o Manifesto chegou tão longe. E fico lisonjeado em saber que você chegou ao meu blog daí do outro lado do Atlântico. Como eu disse, todos podem assinar o Manifesto. Se quiser, fique à vontade.
    Ab
    Vitor


  5. on September 15th, 2008 at 19:01

    Muito bom! Até é estranho um pedido tão sensato nesta era de ciclovias-e-capacetes-a-solução-mágica-para-os-ciclistas…

  6. Paulo Santos said,

    on September 19th, 2008 at 17:24

    É curioso ver como por Lisboa estamos a passar pelo que outras cidades passaram, e pelo que ainda outras irão viver: uma adaptação à mudança constante nos nossos hábitos de vida, que foram completamente adulterados pelo uso irracional do automóvel. Como Engenheiro de Estradas, ganho a vida graças aos automóveis, mas como cidadão, poupo imenso por não utilizar o mesmo diariamente, mas sim a bicicleta. Contrariedades da vida das sociedades modernas, que dão mais valor ao capitalismo (o mesmo que agora afunda a economia mundial) do que ao indivíduo enquanto potenciador de um mundo melhor.

    Paulo Santos
    http://www.100diasdebicicletaemlisboa.blogspot.com

  7. Paulo Santos said,

    on September 19th, 2008 at 17:25

    É curioso ver como por Lisboa estamos a passar pelo que outras cidades passaram, e pelo que ainda outras irão viver: uma adaptação à mudança constante nos nossos hábitos de vida, que foram completamente adulterados pelo uso irracional do automóvel. Como Engenheiro de Estradas, ganho a vida graças aos automóveis, mas como cidadão, poupo imenso por não utilizar o mesmo diariamente, mas sim a bicicleta. Contrariedades da vida das sociedades modernas, que dão mais valor ao capitalismo (o mesmo que agora afunda a economia mundial) do que ao indivíduo enquanto potenciador de um mundo melhor.

    Paulo Santos


  8. on September 20th, 2008 at 16:25

    O manifesto está muito bom! Gosto sobretudo do primeiro parágrafo, pela analogia que faz com a privação dos automóveis a certas vias. É uma outra forma de fazer ver o problema.
    Partilhamos com o Brasil, além de muitas outras coisas, um imaginário sobre a Europa como algo que “está fora”. Apesar de, eventualmente, essa visão da Europa como algo distante estar a mudar em Portugal devido à integração europeia, falar da “Europa” continua a ser uma óptima forma de convencer os cidadãos portugueses e brasileiros a aderirem a certas mudanças.

  9. Hugo said,

    on September 22nd, 2008 at 08:30

    Frederico,

    Obrigado por nos trazeres coisas tão interessantes.
    Sugiro que vejas o Diário de Notícias de hoje. O teu blog foi destacado.

    DIÁRIO DE NOTÍCIAS
    HOJE, 22 DE SETEMBRO 2008
    http://dn.sapo.pt/2008/09/22/sociedade/lisboa_e_capitais_mais_poluicao.html

    Excerto:

    “Andar de bicicleta

    A segurança, as condições meteorológicas e topográficas são geralmente os principais obstáculos invocados para não utilizar a bicicleta no dia-a-dia. Argumentos que têm sido desmontados por várias experiências nas cidades portuguesas, como mostra o blogue “100 dias de bicicleta em Lisboa” (100diasdebicicletaemlisboa.blogspot.com). Paulo Guerra dos Santos percorreu a capital em duas rodas para a sua tese de mestrado sobre a “Contribuição do modo bici na gestão da mobilidade urbana” e concluiu que “Lisboa é uma cidade ciclável, para uma grande parte da população que nela vive, estuda e trabalha.” Para superar as dificuldades pode contar com a ajuda de blogues como “A bicicleta é um meio de transporte e eu “Vou de Bicicleta” para todo o lado” (voudebicicleta.eu) e “Bicicleta na cidade” (bicicletanacidade.blogspot.com), apenas dois dos muitos em que se partilha informação útil para quem pretende utilizar a bicicleta como meio de transporte. Quanto à segurança, pressione as autoridades locais para melhorarem as infra-estruturas para o trânsito de bicicletas, aconselha a organização.”


  10. on October 29th, 2008 at 00:21

    Tudo seria mais calmo e pacífico se se generalizasse o uso da bicicleta. O problema é a falta de respeito e responsabilidade dos automobilistas em relação aos ciclistas. Continua a ser muito engraçado ” dar umas buzinadelas quando se passa por um ciclista pra lhe dar um sustuzinho”. Espero que a lenta mudança de mentalidade se torne rápida.

    João Pereira, http://blogplanetalima.blogspot.com/

    http://www.planetalima.com

  11. Pedro Alves said,

    on November 3rd, 2008 at 15:18

    Olá,

    O manifesto é excelente.
    A cidade de Lx é do pior que conheço para andar de bicicleta. A esperança não morre, mas cidades feitas para carros não são compatíveis com o uso generalizado das bicicletas como meio de transporte.
    Por agora vejo por cá os “aguerridos” e os “loucos”.. faltam os outros todos.

    Parabéns pelo blog e boas pedaladas,

  12. Tiago said,

    on November 12th, 2008 at 03:18

    Boas,

    Sem duvida que o manifesto está excelentemente redigido. Traduz aquilo que muitos dos que usam a bicicleta como veiculo de transporte, pensam, mas que por vezes é dificil transmitir.
    Na nossa cidade de Lisboa (e nas outras também), espero um dia ver passar-se com bicicletas, o boom que tiveram as motas aqui há uns anos. É que também era perigoso e não havia respeito para com os motociclistas, no entanto hoje é um veiculo comum nas ruas (e não foi necessário criar moto-vias). No caso da bicicleta e pelo que vejo, estamos no bom caminho. Eu faço sempre “campanha” junto dos amigos, familia, etc, nunca é demais.

    Tiago

  13. Nitai Bezerra said,

    on December 9th, 2008 at 22:18

    Transporte público, uma solução comum que favorece a maioria. Vejam o que estão fazendo para melhorar o nosso sistema de transporte público. http://www.onibusrecife.com.br

  14. T said,

    on February 24th, 2009 at 22:41

    “O ciclista tem o direito legal de pedalar por praticamente todas as vias, e ainda tem a preferência garantida pelo Código de Trânsito Brasileiro sobre todos os veículos motorizados.” E nós em Portugal, que até estamos na Europa ainda temos um código da estrada velho, antiquado e ultrapassado no que toca aos velocípedes

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